O ENSINO CIRCENSE EM ESPAÇOS SOCIAIS: SE NÃO É FORMAÇÃO DE ARTISTA, É FORMAÇÃO DO QUE?

Hélio Gonçalves Costa

RESUMO: A arte educação circense vem ganhando novos espaços, seja no âmbito, profissionalizante, seja como atividade complementar para jovens e crianças. Este artigo tem como recorte de estudo aulas de circo ministradas em espaços sociais oferecidas em programas governamentais ou entidades do terceiro setor. Esses espaços não têm por objetivo formar um artista de circo. Desse modo, surge a seguinte questão: o que um educando pode desenvolver nesta aula? Também é analisada a percepção do aprendiz referente ao que pode absorver além da técnica circense.

INTRODUÇÃO

Cada vez mais, órgãos governamentais e entidades do terceiro setor apostam em aulas de circo em projetos sociais para complementar as atividades de jovens e crianças em regiões consideradas de vulnerabilidade social. Este trabalho se propõe a pesquisar em que essas aulas contribuem, considerando a formação de aprendizes que frequentam estes espaços.

Para tal, é necessário definir um conceito de cultura a abordar, diferenciar o estudo da arte circense em espaços profissionalizantes e o que é chamado de circo social, bem como, entender o ponto de vista dos jovens que frequentam estas aulas.

Também foi considerada, neste estudo, a experiência do autor deste artigo que trabalha com arte educação circense há seis anos. Este já trabalhou em ONGs e em programas de governo, sua formação enquanto circense também provém de circo social. Esta atuação contribuiu para o que metodologicamente é denominada observação participante com viés etnográfico. “O pesquisador se insere, participa de todas as atividades do grupo pesquisado, ou seja ele acompanha a situação concreta que abriga o objeto de sua investigação.” (PERUZZO, 2010)

Utilizando o conceito de cultura de J. Thompson (2000) que diz que “os fenômenos culturais podem ser entendidos como formas simbólicas em contextos estruturados”, compreende-se que qualquer espaço inserido em determinado local deve manter um diálogo constante com este local. Dessa maneira, não se deve, ou se deveria chegar com uma solução inovadora e ações que não correspondem com a situação local.

Como solução para esta problemática, é possível recorrermos à teoria da ação dialógicai de Paulo Freire (2011) para que haja uma harmonização das relações entre entidades e comunidades sem que a primeira seja vista como um visitante, mas sim como pertencente à localidade. Nesse contexto, compreender de que forma se estruturam os contextos sociais também ajuda no entendimento e assunção de identidade de cada um de nós.

 

Para entender de que forma estes contextos estão estruturados também podemos recorrer a Stuart Hall e Zygmunt Bauman. Hall (2014) chama de modernidade tardia o processo de mudanças rápidas e constantes trazido pela globalização. Já Bauman chama de mundo líquido moderno:

O que torna “líquida” a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é sua “modernização” compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. (BAUMAN, 2013, p.16)

Eagleton (2011, pg. 16) chama a cultura de uma “espécie de pedagogia ética que nos torna aptos para a cidadania política”, podemos dizer que este é o objetivo de ações culturais em espaços sociais, refletir sobre o senso estético e critico de jovens pode tornar mais apurada a visão de mundo de cada um, o educador que trabalha sério pela emancipação de seus educandos não visa apenas a transmissão de conhecimentos artísticos, mas também a formação política.

Outro conceito que irá contribuir ao entendimento do objetivo aqui proposto é o de multiculturalismo critico de Peter McLaren que sugere que:

…educadoras e trabalhadoras culturais levantem a questão da “diferença” de maneira que não repitam o essencialismo monocultural dos “centrismos” – anglocentrismo, eurocentrismo, afrocentrismo, falocentrismo, androcentrismo, e assim por diante. (…) Nós devemos lutar por uma solidariedade que não está centrada em torno de imperativos de mercado, mas sim que se desenvolve a partir de imperativos de liberdade, libertação, democracia e cidadania crítica.(MCLAREN, 2000,p.131-132)

Desde seu surgimento como empreendimento, o circo misturou, e o faz até hoje, diferentes linguagens artísticas e diversas culturas.

Esta arte surgiu de uma iniciativa de um ex-oficial militar que uniu a nobre arte da equitação com os populares saltimbancos, artistas de diversas nacionalidades em um mesmo espetáculo (TORRES, 1998).

O espetáculo circense já contempla uma variedade de modalidades, pois pode conter apresentações de malabares, acrobacias de solo, acrobacias aéreas, equilibrismo, contorção, saltos, palhaço, entre outros. Além de estabelecer uma relação íntima com outras linguagens artísticas como o teatro, a música, a dança e a utilização de técnicas audiovisuais. Esta diversidade artística em um mesmo palco é uma herança das origens do circo como empreendimento.

A aproximação da arte popular das feiras com a arte equestre militar possibilitou o surgimento do espetáculo circense que vai se perpetuar

 

até os dias atuais. Ou, para ser mais correto, com a diversificação dos espetáculos de circo, àquela união original vieram se somar muitas outras, como a coreografia, o music-hall, a música propriamente dita e as diversas formas teatrais, desde a pantomima e os roteiros readaptados da commedia dell ́arte, até o melodrama que no início se mostrou como hipodrama ou pantomima equestre. (BOLOGNESI, 2003, p.36)

Havia também, nesses espetáculos, uma divisão de classes clara, com “geral”, arquibancada e camaroteii. Aqui, pode-se dizer que essa temática é muito importante no âmbito do ensino deste tipo arte, pois por meio desta questão, é possível que se estabeleça um diálogo reflexivo entre educadores e educandos. Nesse ponto, além de se compreender como era e como funciona hoje em dia uma arte que vive do multiculturalismo, pode-se estimular a crítica referente à relação da arte com a vida social.

2 thoughts on “Circo Social”

  1. O texto é intrigante pois revela o quanto já se possui de informação e o quanto se aplica na pratica e ou na multidisciplinaridade, transversalidade e pedagogicamente prático.
    Não que não ocorra, mas ocorre ainda sem a estruturação aproveitando a superlatividade da metodologia circense como ferramenta e ou veículo poderoso para “conduzir” outros conteúdos.
    O “o que” já está escrito…O desafio que proponho é corporatificar o “como” !!!
    Eu diria que será um sistema “antropico biunivoco” mas não para que seja fechado em si mesmo mas para que a medida que produza informação, resultados ele se alimente e cresça, ampliando seu alcance tanto horizontalmente que verticalmente. E analogamente a um sistema vivo, orgânico possa multiplicar suas estruturas em si mesmo completando-se tornando-se “auto ciente”.
    Em mais de 40 anos de pesquisas posso afirmar essa “possibilidade”.
    Adams Auni

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